
Cento e quarenta e seis milhões de euros. É o que o Estado deixou de cobrar em IMT e Imposto de Selo desde agosto de 2024, quando entrou em vigor o regime de isenção para jovens até 35 anos. Cerca de 100 mil transacções beneficiadas em menos de dois anos.
A notícia saiu esta semana no ECO e foi tratada como tema de política fiscal. Compreensível. Mas tu não és jornalista nem economista. És consultor imobiliário. E para ti, esta notícia tem um significado muito concreto que vale a pena analisar com calma.
Não é exagero. Uma parte significativa destes 100 mil jovens não teria comprado casa sem este incentivo, ou teria comprado mais tarde. A isenção de IMT numa compra de 200 mil euros representa uma poupança real de 4.000 a 5.000 euros que ficam no bolso do comprador em vez de ir para o Estado. Isso não é cosmético. É a diferença entre conseguir ou não fechar o financiamento.
O que este regime fez foi deslocar no tempo uma decisão de compra. Acelerou transacções que aconteceriam em 2026, 2027 ou 2028. Já estão no mercado agora.
Pergunta directa: a tua carteira de angariação reflecte esse novo perfil de comprador?
Há 3 meses fiz esta pergunta a um colega consultor com quem conversei em Lisboa. Reclamava que os jovens compradores perdiam tempo, não sabiam o que queriam, faziam ofertas baixas. Ouvi com atenção e depois perguntei-lhe: "Acompanhas-te o processo de pré-aprovação bancária deles antes de marcar visitas?"
Silêncio.
Este perfil de comprador tem características específicas. Muitos entram no mercado sem ter feito uma única compra imobiliária na vida. Não sabem o que não sabem. E a isenção de IMT deu-lhes confiança financeira mas não lhes deu literacia de processo. Esse gap é o teu trabalho.
O consultor que percebe isto e estrutura a primeira conversa à volta da jornada completa (pré-aprovação, escolha de imóvel, negociação, CPCV, escritura) constrói uma relação de confiança que os compradores de 32 anos não esquecem. Daqui a 10 anos, quando precisarem de vender essa casa e comprar outra maior, lembram-se de quem os acompanhou.
Aqui está a parte que a maioria dos consultores ignora: mais compradores jovens no mercado significa pressão sobre um segmento de preço específico.
Em Lisboa, o tecto prático para beneficiar da isenção de IMT na totalidade é 316 mil euros (acima desse valor a isenção é parcial e desaparece nos 633 mil euros). Isto cria uma concentração de procura nessa faixa. Tipologias T1 e T2 em zonas de metro, com boa eficiência energética (o banco também exige), tornam-se activos muito mais líquidos do que eram há dois anos.
Se tens angariações concentradas acima de 500 mil euros, não sentes este efeito directamente. Mas se trabalhas o mercado de entrada ou o mercado de substituição (famílias que vendem um T2 para comprar um T3), então a velocidade de escoamento dos teus imóveis na faixa dos 200 a 320 mil euros deveria ter melhorado. Se não melhorou, há qualquer coisa no posicionamento do imóvel ou no preço que não está certa.
Políticas fiscais mudam. Este regime foi criado por portaria e pode ser alterado ou extinto com relativa facilidade. A janela está aberta agora.
O que isso significa na prática: os proprietários que têm imóveis nesta faixa de preço têm hoje uma vantagem de liquidez que podem não ter daqui a 18 meses. Se tens clientes proprietários com imóveis neste segmento que "estão a pensar vender", esta é uma conversa que vale a pena ter já. Não amanhã.
Em 20 anos de actividade aprendi que os melhores momentos para angariar não são os que toda a gente reconhece como óbvios. São os que resultam de ler o mercado um trimestre à frente dos outros.
146 milhões de euros. 100 mil transacções. Estes números existem. Estão publicados. O proprietário com quem te vais reunir na próxima semana provavelmente não os conhece.
Um consultor que chega a uma reunião de angariação com dados concretos sobre o perfil de comprador activo no mercado, a faixa de preço com maior liquidez e o tempo médio de absorção no segmento do imóvel em causa não está a fazer marketing. Está a exercer uma profissão.
A diferença entre um consultor que "traz clientes" e um que "gere activos imobiliários" está exactamente aqui: na capacidade de transformar informação de mercado em argumento de negócio para o cliente.
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